Você acorda, escova os dentes, vai pro trabalho e ouve no rádio uma música que a faz lembrar dela. De repente, todas as músicas parecem ter sido escritas pra vocês duas. Algumas são da época do comecinho do namoro, outras, daquele feriado incrível em que viajaram, depois vem a música que você já quis cantar gritando na porta da casa dela de madrugada, mas desistiu – a bem da sua integridade perante os vizinhos e da sua ficha criminal ainda limpa na polícia. Sim, isso é perturbação do sossego.
É muito difícil lidar com a perda, principalmente com a perda de alguém que não se vai completamente. Quando não ficam roupas e presentes, fica o cheiro, o beijo, o jeito na lembrança. Aí você tenta apagar de todas as formas possíveis: baladas, amigos, outros beijos, outros cheiros, outros jeitos. E parece que quanto mais você tenta apagar, mais nítidas torna essas imagens todas.
É impossível riscar da mente alguém com quem você ainda quer dividir o petit gâteau, um passeio ao cinema, um problema de trabalho. É insuportavelmente inexequível deletar quem você ainda deseja do seu lado naquela festinha de família, na missa de sétimo dia de um amigo que se foi precocemente, na reunião chata do condomínio. Mas pelos mais diversos motivos, ela não quer mais.
Houve uma época em que verdadeiramente acreditei que existiam vários amores ao longo da vida. Hoje tenho a dúvida de ter vivido um ou nenhum. Acho que amor é forte demais pra acabar assim, de um lado só.

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